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Por Marli Gonçalves   Tem um novo mundo aí fora, mas ele está é muito estranho. Ensaiamos os primeiros passos, de longe parece até a tal normalidade do que lembrávamos ocorria antes dessa desgraça q...

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Esse novo (anormal e perigoso) mundo aí fora.

Publicado por: Editor
26/09/2021 03:54 PM
 Fernanda Latronico/Pexels
Fernanda Latronico/Pexels

Por Marli Gonçalves

 

Tem um novo mundo aí fora, mas ele está é muito estranho. Ensaiamos os primeiros passos, de longe parece até a tal normalidade do que lembrávamos ocorria antes dessa desgraça que afetou o planeta. Mas nós temos uma desgraça anterior a tudo isso, e que não passa, só se agrava a cada dia, e agora a enfrentamos cara a cara, presencialmente. É preciso nomear e identificar o quanto antes essa roupagem que usa para se infiltrar

 

Vou falar: ando mesmo tendo muita dificuldade de lidar naturalmente com tantas coisas juntas que vêm ocorrendo, dia após dia e, continuamente, sem solução, soterradas por outras, dia após dia. Vão ficando pelo caminho – talvez um dia saibamos o final dessas histórias todas, e até sejam punidos os malfeitores, quem sabe, mas ainda duvido. É avalanche, porque aumentam de volume quanto mais se aproxima o final por nós tão esperado dessa novela distópica em que estamos metidos.

 

Passado mais de um ano e meio, todos os dias somos assombrados, tantos pesadelos atormentando nosso sono, agora os encontramos ao vivo, e pressentimos que esse encontro coletivo é forte, perigoso e abala ainda mais nossos sentimentos já tão massacrados por perdas, e de tudo. Pessoas queridas arrastando sequelas não contabilizadas e, portanto, desassistidas. Bate um desespero de poder ajudar pouco, e ainda ver os que poderiam nada fazerem; ao contrário, passam por cima, sentindo-se ainda mais fortes e poderosos.

 

Outro dia um senhor, segurança de rua que trabalha há muitos anos aqui perto, de repente me chamou para perguntar de onde é que consigo tirar ânimo para estar, como ele disse, “sempre simpática, cumprimentando todo mundo, transmitindo imensa energia positiva”, como definiu, me olhando direto nos olhos. Juro: me disse ainda que irradio luz, e que pareço estar sempre feliz. Ah, quem dera!

 

Eu passava carregando minhas minguadas sacolinhas de compra de mercado, meio desconsolada porque acabara de ver mais aumentos absurdos nos produtos básicos, além de ter batido o olho nas manchetes de todos os jornais expostos na banca próxima. Surpresa, perguntei o porquê e ele apenas me descreveu algumas cenas do cotidiano que durante horas enfrenta diariamente.

 

Fiquei muito contente, envaidecida, claro, ganhei o dia, mas aquilo não me saiu da cabeça e cheguei à conclusão do quanto ao menos disfarço bem minhas angústias. Isso, de alguma forma, todo o tempo. E é cansativo, embora, juro, espontâneo. Pouco ando por aí se não estou legal, e se não estou legal ninguém tem nada a ver com isso – não transfiro esse ônus.

 

Mas não é o que acontece e nesse momento está mais forte a agressividade nas ruas, o medo escancarado da violência – outro dia mesmo um arrastão causou a morte de um jovem empresário a dois quarteirões daqui. O encontro com gente ruim.

 

Nos detalhes que presencio os sinais são fortes. Estão cada dia mais sendo reveladas – e fazendo questão de fazerem isso, o que é pior - diante de nós pessoas e pensamentos inacreditáveis, vindos desse vento ruim do bolsonarismo e assemelhados, um tempo conservador, armado, violento, que divide conosco o mesmo espaço, espalhando o negacionismo com seus atos, imperiosos, espalhando mentiras, desrespeitando regras, não usando máscaras, se colocando contra vacinas, contra a imprensa, integrando essa realidade absurda que desrespeita os vivos e, como agora estamos sabendo, também os mortos, submetidos que foram, como cobaias, a misteriosos experimentos assassinos, forjados e ilegais.

 

Agridem a Ciência, o conhecimento, a cultura, o bom senso, a liberdade, as conquistas de gênero e raciais; avançam tentando trazer de volta com outra roupagem todo o horror já vivido na História, inclusive o horror do nazismo, o que me faz até não entender porque os povos que já foram tão vítimas desses tempos não estarem ainda se organizando para evitar essa volta disfarçada de patriotismo com outras pinceladas.

 

Tudo o que presenciamos é muito maior do que o visível. É preciso nomear, sem retoques, e antes que seja tarde demais.

 

MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano - Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. (Na Editora e na Amazonas). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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